Uma Chatice Do Caraças

Uma Chatice do Caraças

Uma Chatice. Do Caraças.

Tenho feito um esforço para não expressar a minha opinião acerca do tema autárquicas, aqui na minha polis. Este esforço, tem várias motivações mas nenhuma delas parece ser aquela que passa pela cabeça de quem acha estranho o meu silêncio. Apetece-me, no entanto, deixar aqui meia dúzia de coisas escritas.

– Não tenho nenhuma dificuldade em mudar de opinião quando consigo perceber que há uma melhor do que minha, mais coerente, mais sensata, mais verdadeira, mais credível, menos tonta, menos infundada, mais consistente.

– Tenho dificuldade em me rever em manobras “a qualquer-todo-muito-mais que muito-tanto-custo” para alcançar objectivos.

– Não gosto de manadas, assustam-me, sobretudo as de opinião e, confesso, as de ausência dela, também.

Reconheço valor a muitos dos candidatos que se perfilam em mais do que um cartaz de mais do que um partido. Reconheço-lhes valor porque os conheço, sei do que são capazes e, tão ou mais importante, acredito “no que não são capazes de”. É uma espécie de fé, é certo, mas a fé tem uma força enorme apesar de não a crer inabalável. É, portanto, uma enorme gaita quando a malta se dispersa pelas várias equipas ou não é, sequer, convocada.

É uma ganda nóia quando se nos escapa a coerência ao lidar com a ausência dela. Deixa-nos um bocadinho à toa e somos levados a desejar que fosse possível organizar a caderneta à nossa vontade. Mas não é. Não é assim que as coisas funcionam. Para isso era preciso “estar lá”, dentro da “coisa” e, uma vez lá dentro, facilmente perceberíamos porque é que não íamos conseguir agradar a todas as cores do arco-íris. Ou então ficávamos a conhecer-nos melhor. A nós. Também pode acontecer, às vezes.

Um destes dias disse a uns amigos que talvez fosse tudo mais fácil se nos outdoors estivessem radiografias ou ecografias dos candidatos em vez de fotografias como se, dessa forma, pudéssemos ver melhor o que lhes vai “por dentro”, o que os move. Seria muito mais fácil votar em consciência se quem se candidatasse o fizesse também em consciência, não era?

Sou filiada num partido político há mais de 25 anos. Nunca “militei”. Nunca colei um cartaz. Já defendi em muitas batalhas as ideias e os ideais em que acredito. Já votei, mais do que uma vez, em outro partido que não o meu. Seja por não me ter revisto no candidato que apresentavam seja por me rever mais noutro candidato de outro partido. Isto porque não gosto de manadas. Assustam-me, já o disse. E se forem cegas, surdas e mudas, ainda mais.

Assim sendo, o que me espera é uma chatice do caraças na altura de meter a cruz no boletim de voto. Detesto que me baralhem mais do que o necessário e cada vez o fazem mais e mais depressa. Por “dá cá qualquer coisa” ou por “dá cá aquela palha”, nem sei bem. Isto tudo, só para dizer que entre o “porque sim” e o “porque não” há sempre um “nem pensar” e um “Deus me livre”.

Isto tudo só para deixar aqui escrito que alguém já se devia ter chegado à frente e dito que ia alcatifar a Rua da Canada, por exemplo. Isto tudo só para dizer que é feio apontarem dedos uns aos outros e é muito feio tirarem macacos dos narizes para os pôr nas cabecinhas. Ou vice versa, tanto faz. Não me calo ou barafusto por estar a favor, contra, dentro, fora, na beira, na borda. Não me calo ou barafusto por ter medo de aparecer numa valeta com formigas a sair da boca. Não me calo ou barafusto por me terem feito ou quebrado alguma promessa. Às vezes calo-me apenas porque estou triste e, outras vezes, barafusto apenas porque estou triste.
Exatamente isso. Só isso.

Não há tempestade que não dê em Bonança nem sol que sempre dure, é assim que se diz? Agora não me venham é com discursos de “sol na eira e chuva no nabal”, poupem-me.
Poupem-nos.
Isto já é uma chatice. Do caraças.
Tal como está.


Autora: Cristina Gameiro

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